Na sombra lúgubre da sepultura fria, Um homem cava o solo úmido. Na face pálida o suor escorre. Dos braços fortes, a pá é amante, Juntos passam dia e noite, Construindo frios jazigos, pesadelos para os vivos, Para os mortos eterno abrigo . O vento sopra a garoa fina, Uma voz alegre uma canção entoa. Suado, o coveiro pára e pergunta : Quem és tu que cantas sorrindo ? Um homem rico - o estranho responde- Sou dono do túmulo que vês adiante. Não te perguntei se és rico ou pobre, Perguntei teu nome não falei de riqueza. Como pode ser dono do túmulo que apontas, Se o dono do túmulo nele se encontra ? Nobre coveiro minha história é longa, Mas, posso contá-la se isto te agrada. Pois conte logo ! - roga o coveiro. Nesta tarde fria em que o tempo está morto, Uma boa narrativa o despertará de novo. Pense bem amigo falante, se acordarmos O tempo que dorme tranqüilo, mais Breve chegarás ao teu incerto destino. Pois então, que o tempo acorde, Que passe correndo e a noite chegue ! Uma cama gostosa, uma esposa quente, É o meu destino no dia de hoje. Enquanto narro meu infortúnio, Enquanto conto minha história, Afunde bem essa tua cova, Em breve chega o inquilino, A tumba pronta deve estar. Contas logo a tua história, Deixas comigo esta cova, Antes da noite eu a termino, Só amanhã será ocupada.


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