Testículos Pensantis


23/04/2006


O Coveiro

Na sombra lúgubre da sepultura fria,

Um homem cava o solo úmido.

Na face pálida o suor escorre.

Dos braços fortes, a pá é amante,

Juntos passam dia e noite,

Construindo frios jazigos,

pesadelos para os vivos,

Para os mortos eterno abrigo .

 

O vento sopra a garoa fina,

Uma voz alegre uma canção entoa.

Suado, o coveiro pára e pergunta :

Quem és tu que cantas sorrindo ?

 

Um homem rico - o estranho responde-

Sou dono do túmulo que vês adiante.

 

Não te perguntei se és rico ou pobre,

Perguntei teu nome não falei de riqueza.

Como pode ser dono do túmulo que apontas,

Se o dono do túmulo nele se encontra ?

 

Nobre coveiro minha história é longa,

Mas, posso contá-la se isto te agrada.

 

Pois conte logo ! - roga o coveiro.

Nesta tarde fria em que o tempo está morto,

Uma boa narrativa o despertará de novo.

 

Pense bem amigo falante, se acordarmos

O tempo que dorme tranqüilo, mais

Breve chegarás ao teu incerto destino.

 

Pois então, que o tempo acorde,

Que passe correndo e a noite chegue !

Uma cama gostosa, uma esposa quente,

É o meu destino no dia de hoje.

 

Enquanto narro meu infortúnio,

Enquanto conto minha história,

Afunde bem essa tua cova,

Em breve chega o inquilino,

A tumba pronta deve estar.

 

Contas logo a tua história,

Deixas comigo esta cova,

Antes da noite eu a termino,

Só amanhã será ocupada.

Escrito por Zanni às 16h22
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Cont...

Escutas então, mas não me julgues,

Não interrompas a narrativa.

Nasci pobre e mal fadado,

Não era rica minha família.

Fui trabalhar muito cedo,

e muito cedo percebi, que

sendo pobre, humilde, honesto,

tendo mulher e fé em Cristo,

Para sempre seria escravo,

Não seria dono só empregado.

E assim sendo então decidi,

sem pensar em Deus ou no Diabo,

que meu destino me pertencia,

um rico homem um dia seria.

E não medindo meios para isto,

sem pensar no certo ou errado,

fui ladrão, cafetão, deputado,

E no dia que minha vida deixei,

a este velho cemitério cheguei,

não cheguei pobre e miserável,

não era mais um pobre coitado.

Como podes ver com teus olhos,

o meu túmulo é magnifico,

dos mortos aqui enterrados,

com certeza sou o mais rico.

 

Então é verdade, já desconfiava,

tu não és vivo és um fantasma.

Mas, o que ganhastes com tanta maldade,

Se para o túmulo nada levastes ?

Enquanto me contas o teu passado...

falas sobre o que fizestes de errado,

Um herdeiro vivo e sorridente,

gasta teu dinheiro inutilmente.

 

Você nem imagina o quanto te enganas.

Abaixo do caixão que meu corpo repousa,

Toda a fortuna que tive em vida,

Transformada em ouro está escondida.

E não acredites, nem por um momento,

que do meu dinheiro não fiz proveito.

Aproveitei a vida de todas as formas,

Amante incansável, no sexo libertino

Homens e mulheres tive na cama.

 

Se minha vida fosse como foi a tua,

não teria orgulho e sim vergonha,

ladrão, cafetão, deputado, viado,

nada de bom tens no teu passado.

Escrito por Zanni às 16h22
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Cont...

 

Cala a boca ignorante !

Não julgues o que não entende,

Sou rico e tu és pobre,

Somos muito diferentes!

A moral que infligem aos pobres,

Aos ricos não se aplica.

O poder que o dinheiro compra,

Um pobre nem imagina,

Mas, do que adianta explicar,

perco meu tempo com isto,

Serás pobre para sempre,

não saberás o que é ser rico.

 

Ah, nobre fantasma,

eu sou pobre tu és tolo,

Sou honesto, mas não bobo.

O que não faria com um vivo,

Com prazer farei com um morto.

 

O que pretende meu amigo,

Com esta pá e picareta ?

 

Não me chames de amigo,

não sou amigo do capeta,

Tu és um ladrão safado,

Explorastes a pobreza.

O que vou fazer contigo,

já fizestes com muita gente,

vou violar teu abrigo,

vou roubar os teus pertences.

 

E sob o luar lúgubre da madrugada fria,

Um homem viola um nobre túmulo,

A face pálida um sorriso ilumina,

Os braços fortes, destroem paredes.

A cada pedra que bate e derruba,

Um fantasma louco geme e grita,

Não lamenta os erros de sua vida,

Lamenta sim, a fortuna perdida.

 

Trinta anos se passaram,

E num cemitério conhecido,

A chuva lava túmulos antigos.

Uma voz triste uma canção entoa.

De dentro da cova o morto grita :

Quem és tu que por mim choras ?

Escrito por Zanni às 16h21
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fim...

Não choro por ti, apenas canto,

Uma Antiga cantina de acalanto,

antiga cantiga, triste e mágica,

que para mim, minha mãe cantava.

Mas, eis que o bom filho a cova torna !

Não és mais coveiro, agora és defunto.

Levantes daí, saia do túmulo,

Conta para mim a tua estória,

Em tempos passados te contei a minha,

Mas conta devagar, bem lentamente,

Pois a eternidade temos a nossa frente.

 

Do fundo da cova, o coveiro levanta,

Gordo, deformado, pela morte maltratado.

Reconhece o fantasma, que um dia roubara.

No inicio confuso, agora entende,

Que juntos ficariam eternamente.

 

E aqui termina esta narrativa,

E como tudo na vida em morte acaba.

E para encerrar só a moral falta:

O certo e o errado não existe,

Depois de morto não há diferença,

Bons e maus tem a mesma sentença,

Num frio cemitério para sempre convivem,

Vizinhos em lápides próximas e distantes,

Eternos amigos as vezes amantes.

Escrito por Zanni às 16h20
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