II
Roberto ficou consciente novamente. Estava em sua cama.
Ao seu lado, o corpo de um homem. Sua cabeça, coberta por um lençol.
Um lençol vermelho. Ensangüentado.
Esticou sua mão para levantar o lençol. Percebeu que embora sentisse seus
membros, os mesmos não mais existiam. Foi até o espelho, não enxergou seu
reflexo. Lembrou o que aconteceu, entendeu que o corpo que estava ali, na
cama, estendido, morto. Era seu próprio corpo.
Olhou para os lados, como que procurando algo.
Olhou pela janela.
Será que deveria sair voando em direção ao céu ? Para que direção ficaria o
Paraíso ? E se lá chegasse e não o deixassem entrar ? Achou melhor ir até
o inferno, mas também não sabia em que direção ficava. Deveria ir em
direção ao centro da terra ? Achou melhor esperar que alguém o viesse
buscar.
Flutuou pelo quarto, estava se acostumando com a falta de peso. A porta
estava fechada. Como faria para sair ? Resolveu tentar atravessa-la, afinal
ele era um espirito, pelo menos achava que era, e um espirito faz estas coisas.
Atravessou a porta sem problemas, se dirigiu para o quarto da filha. A porta estava aberta.
De dentro do quarto vinha uma luz forte, iluminando o corredor. Se aproximou. Pela porta viu sua filha, sendo possuída por um homem. A luz que iluminava o quarto vinha do corpo de sua filha. Sentiu vontade de atacar o homem, mas nada podia fazer. Sua filha sentia prazer, e quanto mais prazer ela sentia mais seu corpo se iluminava.
Assim como as mariposas são atraídas pelas lâmpadas ele começou a ser atraído pela luz de sua filha. Ela estava preste a atingir o auge do prazer, seu corpo parecia estar sendo consumido por chamas. De repente a luz, que vinha dela, o cegou. Parecia que ele estava olhando para o sol. Se sentiu sugado para o centro daquela luz , sua mente se fundiu com dela. Suas recordações passaram a ser recordações dela, e as dela, as dele.
Roberto sentiu a tristeza de sua filha quando ele se separou de Simone. O desejo de vingança por ele ter abandonado sua mãe. A necessidade que ela tinha de fugir daquela realidade. Ela sair correndo de casa para se encontrar com Cláudio. A dor e prazer de sua primeira noite de sexo. A sensação de experimentar drogas pela primeira vez. A necessidade sempre crescente de se drogar e se drogar.
Cláudia sentiu a alegria dele ao vê-la , pela primeira vez, no berçário do hospital. O cansaço que ele sentia quando ela ficava doente e ele passava a noite no hospital, sentado ao seu lado , segurando a sua mão. O orgulho do pai que vê a filha se transformando em mulher bonita. O ciúmes ao vê-la com seu primeiro namorado.
O medo que ela se cassasse e fosse embora e a certeza, de que um dia, isto teria que acontecer.
Roberto viu Cláudio falar para ela que estava devendo muito dinheiro para traficantes. Que eles iam mata-lo se não pagasse. Viu seu próprio rosto negando o dinheiro para Cláudia e mandando ela ir trabalhar. Escutou Cláudio falando que não ia mais dar drogas para Cláudia se ela não lhe arrumasse o dinheiro que precisava.
Cláudia viu Simone se negando a fazer sexo com Roberto. Sentiu a tristeza de Roberto ao descobrir que Simone estava transando com um de seus empregados. A vergonha que ele sentiu ao saber que todos os funcionários de sua empresa, sabiam do caso de Simone e riam dele pelas costas. Sentiu as lágrimas escorrerem pelo seu rosto quando Simone falou que nunca tinha o visto como homem, e sim apenas como um caixa eletrônico. Sentiu a necessidade que ele tinha de um pouco de carinho quando conheceu Cristina, uma moça 20 anos mais jovem que ele mas que lhe dava o carinho que Simone nunca tinha lhe dado.
As duas mentes se fundiam cada vez mais. Roberto imaginou Cláudia na cadeia. Cláudia sentiu que iria para a cadeia. Cláudia ficou triste com o jeito que Simone tratava o pai e compreendeu o motivo do divorcio. Se arrependeu do que tinha feito e começou a chorar.
Roberto sentiu as lágrimas de remorso da filha e chorou também.
- Tá chorando, por quê ? - perguntou Cláudio.
Cláudia não escutou, seus pensamentos ainda estavam unidos com os de Roberto. Roberto só pensava em como livrar a filha da cadeia e de Cláudio.
- Vá para meu quarto - pensou Roberto.
- Vamos ao quarto de meu pai - disse Cláudia levantando-se e dirigindo-se para o quarto de Roberto.
- Não podemos ir lá, já limpei tudo. Você vai acabar deixando pistas.
Mesmo assim Cláudia continuou indo em direção ao quarto. Cláudio a segurou. Ela escapou.
Cláudio a alcançou e a jogou contra a parede. Ela deu um tapa em sua cara. Ele deu um soco na cara dela. Ela ficou no chão, caída.
- Vá para meu quarto. - pensou Roberto.
Cláudia se levantou e correu para o quarto.
- Abra a gaveta. - pensou Roberto.
- A gaveta. - falou Cláudia.
Cláudio correu atrás dela mas não conseguiu alcança-la.
- Embaixo do livro. O revolver - pensou Roberto.
- Um revolver. - falou Cláudia. Levantou o livro, pegou um trinta e oito e apontou para Cláudio. Cláudio recuou.
- Fique ao lado da cama - pensou Roberto.
- Fique ao lado da cama. - falou Cláudia.
- Meu amor, agora nada vai impedir que fiquemos juntos. Com a morte deste imbecil, ficaremos ricos.
- Meu pai me amava! Agora eu sei disto. Me arrependo do que fiz.
- Amava nada. Ele odiava você e sua mãe. - enquanto falava, se aproximava de Cláudia.
- Atire. - pensou Roberto.
- Cláudio, você não entende. Meu pai me amava, amava minha mãe. Agora eu sei. Nós que não o entendíamos.
- Como você sabe ? - Cláudio continuava a se aproximar.
- Atire. - pensou Roberto
- Meu pai...ele está dentro de mim. Posso sentir seus pensamentos...suas emoções...suas recordações.
- Você está louca. Me dá esta arma e vamos embora.
- Não, vou ficar com meu pai...eu o amo.
Cláudio avançou para Cláudia e agarrou sua mão. Cláudia com uma força sobrenatural jogou Cláudio contra a parede, apontou a arma para ele.
- Cláudia. Você não tem coragem de atirar em mim.
- Cláudia não tem. Mas eu tenho.
Cláudio recuou assustado com a voz que saiu da boca de Cláudia. Dos olhos de Cláudia saiam lágrimas.
Cláudio escutou um barulho. Sentiu uma pequena pontada na altura do peito. Começou a ficar tonto, caiu. Estava morto.
Cláudia foi até o telefone. Chamou a polícia. Ia contar toda a verdade mas sentiu que seu pai não queria isto. Falou que Cláudio a tinha estuprado, matado seu pai. A policia acreditou. Afinal Cláudia estava machucada, havia esperma de Cláudio dentro dela.
(continua no post abaixo...)